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17 . NOVEMBRO . 2015

O saudosismo que sacrifica o futuro do jornalismo

O jornalismo tem passado ao longo do tempo por uma série de transformações. As mudanças no setor impactaram a produção, o formato, a linguagem, as plataformas, os profissionais. No entanto, uma coisa não mudou, as pessoas continuam lendo e querem estar informadas. A realidade é que a informação é tão relevante e importante hoje, quanto foi há 30 anos.

Apesar de ser uma necessidade estar bem informado, percebe-se um sentimento latente nas pessoas de falta de identificação em relação à mídia tradicional. Os leitores não se reconhecem mais nas matérias que leem e isso não começou ontem, este é um processo de distanciamento que teve inicio há alguns anos já. Em contrapartida, o volume de compartilhamento de notícias nas redes sociais aumentaram significativamente. As mídias digitais não competem com o jornalismo, como alguns chegaram a pensar, elas podem ser uma ferramenta poderosa de comunicação.

Isso me leva a crer que o jornalismo não foi superado, mas o trabalho jornalistico focado sempre nas mesmas fontes, precisa ser. Há espaço principalmente para a criação e colaboração, e para isso, entendo ser essencial reconhecer que os leitores sentem a necessidade de ser representados pelos veículos de comunicação, e não são com frequência. Talvez na urgência em dar a notícia primeiro, o mais corriqueiro seja recorrer aos profissionais mais próximos, que fazem parte do circulo de amizades. No entanto, essa limitação restringe mais que o tempo, dilapida a qualidade do conteúdo. Afasta leitores. 

Escutei dia desses uma critica de um jornalista com vasta experiência, representante de um veículo tradicional, durante o I Encontro de Jornalistas em Tiradentes, em Minas Gerais, que me deixou intrigada. Ele dizia que dezenas de profissionais de mercado enchiam a caixa de entrada de e-mails dele, querendo divulgar “seus negócios”. Falava em tom de crítica aos assessores de imprensa. Controverso, depois criticou a carência de novas fontes. Talvez se não ignorasse os e-mails que recebe, sua pauta de contatos seria mais farta e rica de experiências diversas.

Depois de escutar essa contradição, o que ficou mais evidente ao meu ver, é que o saudosismo do jornalismo de décadas passadas, impossibilita que muitos profissionais enxerguem as possibilidades de avanço no trabalho jornalístico que se faz hoje em dia. Acredito que o ‘fazer jornalismo’ não deve se limitar às salas de redação. O mercado mudou, os leitores mudaram, adaptar-se e reconhecer essa realidade é impreterível.

O profissional de redação que rejeita a colaboração do jornalista que trabalha na outra ponta, na divulgação de informações de seus assessorados, deve alimentar um circulo virtuoso de representação dos leitores e da sociedade nas páginas dos veículos de comunicação. As páginas antes destinadas às reportagens, a retratar a realidade, não podem virar colunismo social, promovendo sempre os mesmo nomes, as mesmas fontes.   

É preciso superar o saudosismo do jornalismo praticado nos dias que já foram e atuar de forma colaborativa com os jovens que chegam ao mercado da comunicação e tem muito a agregar com sua visão e conhecimento. E para isso, considero essencial que o jornalismo comece a ser discutido além do trabalho realizado dentro das redações.

Seja de qual for a geração, o propósito do jornalista é comunicar, esteja na realidade das redações ou fora delas, atuando em diferentes setores. É preciso superar o saudosismo e olhar para o futuro, enxergar no que estamos avançando, reconhecer as conquistas e as qualidades desta geração, pensar além das fronteiras conceituais em como é possível continuar e aprimorar a comunicação.

 

 

Thaise Saeter

Diretora de Redação